Pesquisa com rede municipal de São Paulo busca reduzir desigualdade educacional

Pesquisa com rede municipal de São Paulo busca reduzir desigualdade educacional
O secretário municipal de Educação de São Paulo, Fernando Padula, o diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fapesp, Carlos Américo Pacheco, e o titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira, Mozart Neves Ramos, durante o evento. Crédito: Daniel Antonio/ Agência Fapesp

Para reduzir a desigualdade educacional na rede paulistana, a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo está contando com apoio técnico e análises personalizadas por meio de parceria com a Cátedra Sérgio Henrique Ferreira, do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto da USP. O objetivo é estabelecer um trabalho conjunto para identificar fatores que podem favorecer o desempenho escolar em condições diversas, e estabelecer medidas para a melhoria dos resultados de todos os estudantes.

As informações foram compartilhadas durante o Ciclo ILP-FAPESP de Ciência e Inovação, no dia 17 de março. O encontro on-line faz parte de uma parceria entre o Instituto do Legislativo Paulista (ILP) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para realização de eventos de divulgação científica dirigidos à sociedade, legisladores, gestores públicos e demais interessados.

No debate, Mozart Neves Ramos, titular da Cátedra, dialogou com o secretário Municipal de Educação de São Paulo, Fernando Padula, sobre a aplicação de uma metodologia baseada em dados e evidências para identificar e mensurar desigualdades nas redes de ensino. O projeto também está sendo desenvolvido em outros cinco municípios paulistas: Ribeirão Preto, Batatais, Cordeirópolis, Jundiaí e Francisco Morato. A iniciativa tem apoio da Fapesp e da Secretaria Estadual da Educação, no âmbito do Proeduca, programa de apoio à Educação Básica. 

“Nós aplicamos uma técnica chamada de componentes principais, que toma um conjunto de cinco indicadores muito conectados com o desempenho escolar, e traduz esse problema matricial em um quadro bidimensional, facilitando a leitura. Além disso, desdobramos estas informações em mapas de georreferenciamento escolar, permitindo visualizar claramente como está o desempenho de cada escola e qual seu contexto”, explicou Mozart durante a conversa. “A gente só consegue ter uma ideia do tamanho da diferença entre escolas numa mesma região se a gente conseguir traduzir esses dados. Sem isso, muitas vezes o que acontece: fazemos uma única política para melhorar o desempenho escolar numa rede muito desigual! Se a gente levar a mesma solução para situações muito diferentes, a gente não vai conseguir um avanço equânime”, afirmou.

De acordo com o titular da Cátedra, ao identificar as desigualdades é possível desenhar ações concretas mais eficientes. Para o secretário Fernando Padula, a partir da análise das evidências é possível buscar um equilíbrio entre medidas universais e outras, personalizadas. “Algumas medidas você tem que garantir de forma universal, como ter professores bem formados, plano de carreira, materiais de qualidade. Mas também precisamos ter um olhar customizado, conhecer nosso mapa de vulnerabilidade e adotar o que se precisa fazer para virar o jogo nas unidades com maiores dificuldades. Para isso, é preciso primeiro ter as evidências, fazer cruzamentos e pensar um replanejamento local utilizando outras estratégias para reverter o déficit de aprendizagem”, defendeu Padula. “Se você não tiver informação, vai ficar na tentativa e erro, e vai tropeçar. Por isso, esse trabalho da Cátedra é tão importante para a nossa rede municipal.”

Segundo o secretário, as análises que estão sendo realizadas mostram escolas que, em uma mesma condição socioeconômica, tiveram desempenhos muito diferentes. A partir disso, é possível investigar quais fatores podem estar influenciando os resultados. “Nas escolas com desempenho ainda não tão bom, o que podemos agregar? Tem tido alta rotatividade de profissionais? Como está a formação dos professores na unidade? O diretor mudou? Tem características que podemos fortalecer na liderança escolar local?” detalhou, acrescentando que a rede desenvolveu, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, uma matriz de habilidades dos diretores escolares que pode complementar essa análise. “Esse diretor pode ter conhecimento administrativo, mas não tanto pedagógico, ou então tem os dois, mas faltam habilidades de relacionamento com a comunidade; nós podemos identificar e direcionar um processo formativo, por exemplo.”

Por outro lado, o trabalho também permite estimular o compartilhamento de boas práticas. “A gente encontra escolas com bom desempenho mesmo em uma região pouco favorável do ponto de vista socioeconômico. Tentar compreender o que essas escolas estão fazendo, e compartilhar com as demais unidades da mesma região pode nos ajudar a reduzir essas desigualdades. Fomentar um trabalho colaborativo entre as equipes dessas escolas é uma excelente forma de fazer a rede aprender com a própria rede”, defendeu Mozart. Segundo ele, há alguns anos, 60% da desigualdade escolar podia ser atribuída a questões socioeconômicas, mas atualmente isso mudou, e outros fatores estão sendo compreendidos no seu papel sobre o desempenho também.

De acordo com Padula, essas reflexões reforçam a importância de se fazer boas avaliações educacionais. “Nós podemos fazer críticas aos modelos de avaliação e debater melhorias, mas não dá para não fazer a avaliação. Deixar de avaliar é como querer curar uma febre quebrando o termômetro: você vai perder o instrumento de medida e vai ter menos precisão sobre qual é o caminho mais adequado para curar sua febre. Todos têm condição de aprender, mas você tem que usar as estratégias certas. Sem medida, a gente não vai saber como estão os alunos e onde precisam de mais atenção.”

Desigualdades nas regionais de São Paulo

Os levantamentos já realizados pelo Laboratório de Ciências de Dados em Educação da Cátedra analisaram os resultados de 2019 a 2023 de todas as escolas da rede municipal de São Paulo, nos Anos Iniciais e Finais do Ensino Fundamental, totalizando mais de 700 mil estudantes. Os dados mostram que há grandes diferenças de desempenho entre as 13 Diretorias Regionais de Educação (DREs), e também dentro de cada uma delas.

“Quando olhamos os dados, ficamos absolutamente perplexos. A gente já sabia que haveria certa desigualdade, mas não havia clareza sobre a dimensão que ela apresentaria. Agora, com evidências do desempenho global da rede e das características locais, a gente pode tomar medidas muito mais cirúrgicas que podem produzir resultados para o conjunto da rede”, afirmou Mozart. Segundo o estudo, as DREs com menor desigualdade são as de pior desempenho, ou seja, nas quais a maior parte dos alunos de diferentes escolas tem resultados abaixo do esperado. As regionais com desempenho médio são as que apresentam maiores desigualdades, ou seja, com uma maior distância entre os estudantes com resultados melhores e piores.

“Esse é o maior desafio da busca por qualidade com equidade. Não adianta melhorar a nota média de uma escola ou de uma regional, se for para melhorar para poucos. Nosso objetivo tem que ser a aprendizagem de qualidade para todos e, dentro desse desafio, temos que dar atenção particular à questão racial. Não podemos aceitar que estudantes pretos e pardos tenham menos oportunidades de aprendizagem do que os brancos”, reforçou Mozart. “A gente tem que fazer um grande esforço do ponto de vista da redução da desigualdade no aspecto racial. Nós só vamos ter equidade verdadeira quando pretos, pardos e brancos aprenderem com a mesma qualidade”, complementou Padula.

Por isso, a parceria com a Cátedra vai se desdobrar em outras ações ao longo do ano, em conjunto com a equipe técnica da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. A intenção é realizar debates sobre os dados com as próprias regionais, utilizando também indicadores locais, e gerar planos de ação para endereçar os desafios de forma coletiva. “Daí a relevância de iniciativas como o Proeduca, que estimulam a formação de massa crítica e a articulação entre a ciência, as políticas públicas e o chão da escola. Nós só vamos avançar na velocidade que a sociedade precisa se continuarmos a induzir políticas com base em evidência e voltadas para a qualidade da Educação Básica como um todo”, defendeu Mozart.

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