
Técnicos da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo participaram de um encontro formativo com a equipe da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira, do Instituto de Estudos Avançados, Polo Ribeirão Preto da USP. A formação integra um conjunto de ações da Secretaria para ampliar o uso de dados educacionais em busca de garantir a aprendizagem dos estudantes, com apoio da B3 Social e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Participaram 36 pessoas, incluindo representantes das 13 Diretorias Regionais de Ensino (DREs) e profissionais que trabalham na sede da secretaria. Alguns dos participantes já tinham entrado em contato com o trabalho da Cátedra, mas para uma parte do grupo as informações eram novas. Por isso, antes do encontro presencial foi compartilhada uma playlist com vídeos de aulas introdutórias, preparados pela Cátedra com objetivo de alinhar conceitos fundamentais sobre análise de dados, para que a formação em si pudesse ser prática, com aplicação do embasamento teórico.
Durante os dois dias de formação, foram realizadas atividades de coleta de dados, uso de diferentes ferramentas para trabalhar os indicadores além do Excel, formas de visualização das informações em gráficos variados e interativos, e interpretação de dados por meio de debates coletivos. Para o encontro, a equipe da Cátedra realizou levantamentos com dados atualizados e foi compartilhado o dashboard desenvolvido especialmente para a rede paulistana, no qual a equipe do município pode interagir com os dados e gerar recortes para análises personalizadas.
Essa ferramenta foi mencionada pelo bolsista de iniciação científica Pedro Sartori durante apresentação na XIII Reunião da Associação Brasileira de Avaliação Educacional (Abave) como uma forma de tornar os dados acessíveis de maneira mais amigável e intuitiva, e despertou interesse dos participantes. “Pessoas da própria secretaria que estavam acompanhando a apresentação vieram comentar que estavam animadas para utilizar a plataforma e conhecer as melhores maneiras de ver os dados com ela”, relatou Pedro, explicando que o quadro utiliza informações do banco de dados e pacote na linguagem R desenvolvidos pela Cátedra. “Nesta biblioteca, nós já programamos funções para gerar visualizações e relatórios focados na educação; a ideia é que a secretaria tenha ferramentas complementares, para somar ao trabalho que já realizam com dados.”
Durante a formação, a equipe da secretaria compartilhou outros levantamentos que já tem realizado para acompanhar a trajetória dos estudantes, bem como informações complementares sobre cada escola, que permitem aprofundar as análises e interpretação dos dados. “Nós compartilhamos as técnicas e ferramentas, e eles trouxeram um conhecimento pedagógico e da realidade local muito forte, o que fez as discussões serem bastante ricas, ajudando a compreender por que algumas escolas têm desempenho tão diferente, mesmo em situações teoricamente similares”, afirmou Larissa Porfírio, uma das responsáveis pela formação.
“Conseguimos explorar bem os dados em conjunto e, a partir das observações deles, percebemos que escolas com o mesmo nível socioeconômico podem apresentar contextos muito distintos. Por exemplo, uma pode estar situada próxima a uma estação de metrô, com maior facilidade de acesso e segurança no entorno, enquanto outra pode estar em área de difícil acesso. Esse tipo de leitura contextual ajudar dar sentido aos números, por isso recomendamos que o trabalho com evidências envolva sempre tanto um olhar técnico quanto pedagógico.”
Reflexões sobre o uso da Inteligência Artificial
Além de explorar as diferentes fontes de dados e formas de visualização, esta foi a primeira formação da Cátedra que incluiu sugestões de uso da inteligência artificial para complementar a leitura dos dados. Segundo a equipe, com o cuidado de não compartilhar dados sensíveis e sempre contando com validação humana, algumas ferramentas de IA podem ser importantes aliadas para o trabalho.
“Mostramos algumas técnicas de otimização de prompts, a melhor maneira de construir perguntas para receber a melhor resposta possível com IA generativa e ter auxílio em tarefas a partir da interpretação dos resultados”, explicou Carlos Eduardo dos Santos, bolsista de iniciação científica da Cátedra. Segundo ele, algumas ferramentas podem trazer boas sugestões de atividades para alunos com determinados déficits, agilizar tarefas que demandariam mais tempo se feitas por uma pessoa, como o resumo de notas técnicas, e sugerir formas de comunicar os resultados para as escolas, por exemplo.
“Nós também abordamos as alucinações da IA, quando ela oferece respostas muito diferentes do que seria esperado, e a importância de ter cuidados éticos e cautela. Não basta carregar um gráfico e adotar a interpretação que a IA faz. A ferramenta é aliada, mas é indispensável o conhecimento do profissional para conferir se faz sentido”.
Próximos passos
Os participantes da formação terão três semanas para construir um relatório sintético a partir do que foi compartilhado nos dois dias, buscando maneiras de contextualizar e comunicar os dados. Todos terão acesso às plataformas utilizadas na formação e receberão feedbacks do trabalho realizado. A equipe demonstrou interesse em mais um encontro formativo, para aprofundar as análises e conhecer outras metodologias.
A formação dá início à segunda etapa da parceria entre a Cátedra e a Secretaria que, desde 2024, já realizam ações conjuntas em busca de reduzir a desigualdade educacional no município de São Paulo. No primeiro semestre deste ano, o prefeito da capital, Ricardo Nunes, e o secretário de Educação, Fernando Padula, receberam o relatório com os principais achados da primeira etapa. O estudo mostrou, entre outros aspectos, um desafio maior no desempenho em Matemática – tanto nos anos iniciais quanto finais, mas nestes a situação é mais alarmante –, um cenário de desigualdade entre escolas em todas as Diretorias Regionais de Ensino.
Na ocasião, a equipe da secretaria compartilhou que as análises da Cátedra já estão sendo incorporadas nos trabalhos da Unidade de Planejamento e Gestão Estratégica, que tem procurado caminhos para melhor uso de avaliações e desdobramentos em planos de ação próprios, como a definição e acompanhamento de metas.
Segundo Mozart Neves Ramos, titular da Cátedra, essa atuação focada na redução de desigualdades é estratégica para atender a meta 13 do Plano Municipal de Educação de São Paulo (que visa garantir a implementação de Planos Regionais de Educação, elaborados em parceria com a comunidade escolar para atender às necessidades específicas de cada região), bem como atender ao condicionante do novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) no que se refere à melhoria do aprendizado adequado e à redução das desigualdades.
O relatório executivo compartilhado com a secretaria em maio sintetizou algumas recomendações para a rede. Entre as sugestões, estão a realização de uma política de colaboração entre pares de escolas próximas com desempenhos distintos; a implementação uma política que promova e valorize a formação de lideranças escolares, do núcleo gestor das escolas; o desenho de medidas diferenciadas que enderecem as realidades distintas da rede; e, por fim, uma política permanente de uso de dados e evidências na tomada de decisão.


