Muitas comunidades que vivem na região amazônica sofrem com a pobreza e a ausência de estruturas do Estado. Esses fatores acabam impactando na cooptação desses habitantes pelo crime organizado, que tem expandido seu poder nessa área do Brasil. No USP Analisa desta quinta (4), o coordenador do Grupo de Pesquisa em Criminologia Experimental e Segurança Pública do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto da USP, Eduardo Saad Diniz, e o defensor público do Estado do Amazonas Carlos Almeida Filho comentam essa situação.
Eduardo explica que tudo começa com a dificuldade na obtenção de crédito por pequenos produtores rurais locais, que dependem dessa atividade para sobreviver. “O solo da região é bastante pobre. Então, é preciso comprar uma série de fertilizantes para corrigir a acidez do solo e irrigar, por conta do calor intenso. Mas quando o produtor busca crédito nas instituições financeiras, elas exigem o título de propriedade e há na região um grande problema de regularização fundiária”.
Como consequência, segundo Eduardo, esse vácuo de alimentos acaba sendo preenchido com produtos vindos de outras regiões do País, com mais condições de investir na produção. “As comunidades perecem e você vai abrindo mais e mais áreas de produção, gerando essa história sem fim da devastação ambiental. Então, ainda que a pessoa queira desenvolver um cultivo de forma sustentável, ela encontra uma série de óbices. Eu tenho que ter medidas de enforcement para aqueles que de fato causam comportamento socioambientalmente danoso, mas também uma política regulatória inteligente que permita que aquele produtor rural encontre condições de efetiva produção e não seja criminalizado porque cortou dois, três galhos ali para fazer um galinheiro e alimentar sua família”.
Carlos destaca que muitos produtores que não conseguem sobreviver no campo ou que vivem em comunidades rurais que sofrem com a atuação de grupos criminosos acabam migrando para cidades como Manaus, em áreas dominadas pelo tráfico de drogas. “Só neste ano de 2025 houve pelo menos três comemorações do Comando Vermelho mediante o estouro de fogos de artifício em toda a cidade, comemorando consolidação e domínio do crime. Isso na cara do Estado”.
Para o defensor, não existe vácuo de poder, ele é ocupado. Segundo ele, enquanto o Estado precisa se rearticular a cada dois ou quatro anos e acaba alterando toda a política de segurança, sem entregar resultado efetivo, o crime só troca de comando mediante a morte das lideranças, o que faz com que ele muitas vezes permaneça por décadas nos locais.
“Lá no final, o povo, a população mesmo, acaba sofrendo aquilo que o [escritor de ficção científica] William Gibson dizia: ‘Bom, tem que atender então as corporações que controlam no momento’. E, às vezes, quem tá mais presente é aquele camarada que sabe exatamente quem é tua família, quem é teu grupo familiar. Ele vai controlar pelo poder e pela ameaça onde você pode ir, se deslocar”, diz Carlos.
O USP Analisa é quinzenal e leva ao ar pela Rádio USP às quintas-feiras, às 16h40, um pequeno trecho do podcast de mesmo nome, que pode ser acessado na íntegra nas principais plataformas de podcast.
O programa é uma produção conjunta do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto (IEA-RP) da USP e da Rádio USP Ribeirão Preto. Para saber mais novidades sobre o USP Analisa e outras atividades do IEA-RP, inscreva-se em nosso canal no Telegram ou em nosso grupo no Whatsapp.


