Migração de atividades para o ambiente digital alterou perfil da criminalidade

Migração de atividades para o ambiente digital alterou perfil da criminalidade

A pandemia de covid acelerou, a partir de 2020, a migração de grande parte das interações do dia a dia para o ambiente digital. Com a implantação do pix, nessa mesma época, também ajudou a incluir nessa lista as transações bancárias. Apesar de trazer grande praticidade, os meios digitais também se tornaram ferramentas da criminalidade, o que fica claro pelos índices de roubo e furto de celulares e de golpes aplicados pela internet. Para falar sobre esse cenário, o USP Analisa conversa nesta quinta (9) com o pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP e colaborador do Observatório de Segurança Pública da Unesp, Felipe Ramos Garcia. 

Para ele, o pix foi um recurso importante para inserir no sistema bancário muitas pessoas que antes não estavam integradas. Porém, essa mudança na dinâmica financeira somada à concentração de informações sobre a vida pessoal e profissional nos celulares acabou interferindo no próprio perfil da criminalidade, que tem abandonado atividades como roubo de carros para investir no roubo dos celulares.

“Além do aparelho em si, ele pode ter um ganho adicional que muitas vezes supera esse ganho do aparelho em si. Com a facilidade das transações, conseguindo ali extrair dados que depois ele pode usar para chantagear, pode aplicar golpes usando a técnica do phishing, se passando pela pessoa e usando para pedir dinheiro. Ou até entrando no próprio aplicativo do banco, que talvez pode estar logado. Às vezes, os criminosos pedem para as pessoas logar, aí também fazem transações que são mais rápidas ali, fora de casa. Então, de uma certa forma, eu diria que essa digitalização da vida impactou nesse perfil da criminalidade”, diz Felipe.

O pesquisador destaca que a dificuldade de combate a esse tipo de crime pode ser reduzida com uma maior cooperação entre os diferentes órgãos de fiscalização. Ele cita o recente caso do estado do Piauí, onde uma integração dos serviços da Polícia Civil, Anatel e Ministério Público permite bloquear o aparelho em pouco tempo, reduzindo o tempo que o criminoso teria para obter dados ou efetuar golpes. Além disso, quando os aparelhos bloqueados são ligados novamente, emitem um aviso de que aquele dispositivo foi furtado e  a pessoa que o adquiriu deve entregá-lo às autoridades. 

“A gente viu, no caso do Piauí, uma queda de quase 30% em 2024 em relação a 2023 no número de furtos de roubos de celulares. São Paulo tem tentado fazer isso, o que é bastante interessante, porque você diminui a janela para aplicação de golpes e torna o produto material – no caso, o celular – um pouco mais ineficaz”.

O USP Analisa é quinzenal e leva ao ar pela Rádio USP às quintas-feiras, às 16h40, um pequeno trecho do podcast de mesmo nome, que pode ser acessado na íntegra nas principais plataformas de podcast.
O programa é uma produção conjunta do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto (IEA-RP) da USP e da Rádio USP Ribeirão Preto. Para saber mais novidades sobre o USP Analisa e outras atividades do IEA-RP, inscreva-se em nosso canal no Telegram ou em nosso grupo no Whatsapp.

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